Era uma vez, numa
cidadezinha interiorana no mundo encantado do faz-de-conta-que-é-mentira-mas-é-verdade,
uma mulher muito aguerrida chamada Frida. Ela possuía conhecimento de todas as
teorias feministas já desenvolvidas e compreendia com profundidade certos fenômenos
sociais que muitas vezes o senso comum não compreende (por exemplo, porque às
vezes mesmo sendo vítima de diversas agressões, certas mulheres vítimas de violência
não deixam seus companheiros agressores). Frida era amplamente seguida e
respeitada por muitas mulheres. Ela convencia-as a lutarem por seus direitos e
não serem submissas às vontades abusivas dos homens.
Começou o pleito
eleitoral e as eleições sempre incendiavam aquela cidadezinha. A política local
era dominada por homens que começaram a perceber a relevância que Frida tinha
naquele cenário, já que agregava muitos votos de mulheres. Percebendo a força social
de Frida, os homens então convidaram-na para compor a chapa que iria disputar o
pleito eleitoral. Eles não estavam preocupados com representação feminina ou com
as demandas dessa categoria, queriam apenas puxar esses votos e ganhar a eleição.
Frida compreendia que os homens dominavam a disputa política e boicotavam
qualquer mulher que ousasse desafiá-los. Na cabeça dela, a única forma de
chegar aos espaços de poder seria aliando-se aos homens. No fundo do seu
coração, porém, ela pretendia continuar travando a luta pelo direito das
mulheres. Ela rejeitava a ideia de submissão.
Vencido o pleito
eleitoral, Frida assumiu seu cargo junto ao grupo político dominante. Não demorou,
para ela perceber que, na verdade, ela havia sido objetificada. É que toda vez
que surgia alguma questão problemática que demandava uma atuação em favor dos
direitos da mulher, os homens silenciavam a pauta. Criavam eventos vazios de
sentido que fazia o povo se deleitar em fotos instagramáveis, promoviam joguinhos
esportivos da moda (quase que nos moldes das disputas ferozes do coliseu de
Roma) que mantinham o povo distraído e assim ninguém percebia o que estava
acontecendo. Mas Frida percebia. Ela sabia que tudo aquilo era só uma cortina
de fumaça para parecer que a gestão estava “arrazando”. Ela ficava triste
consigo mesma por ter se rendido ao status quo, por ter se perdido de
quem ela era de fato e por ter abandonado suas companheiras e a sua verdadeira
causa. Ela tinha a opção de se retirar daquilo, de mostrar que ela não era igual
àquelas pessoas e de continuar a luta com independência e fazendo oposição real.
Mas ela se negou, achou que o status quo era invencível, indestrutível e
continuou ali. Mas além de tudo isso, o pior é que, apesar de tudo, ela também
gostava de ter fotos para postar no seu Instagram.
Essa história com (‘h’
minúsculo), totalmente fictícia, mostra uma triste realidade: como é difícil
ser mulher com pensamento crítico independente numa lógica política onde o boicote
masculino é cruel e o status quo funciona como um mago que coopta até o
mais convicto dos ativistas. Na lógica de dominação capitalista, de consumo
perverso e supremacia das aparências típica da sociedade do espetáculo, a luta
por Justiça se tornou esquecida, o bem comum se tornou um palavrão censurável e
a busca por Igualdade social já não importa. O que importa é vestir a camisa só
para tirar a foto. Se houve luta mesmo, não interessa. Interessa o like.
Eu prefiro estar do
lado da luta real, prática e inglória, mesmo que para isso eu tenha que “abrir mão”
de sair na foto.
E você, mulher, de que
lado ficará na História?
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